quarta-feira, 23 de abril de 2008

Objectivar o subjectivo

Vou tentar abordar uma questão delicada, subjectiva e eternamente debatida, referente aos critérios de avaliação de uma prova de dança desportiva. Como sabemos, os factores que cada júri valoriza na performance de um par raramente são consensuais e podem variar segundo a influência de diversos factores “exteriores”. Para nós, dançarinos, é muito complicado saber que em poucos segundos o júri avalia o nosso trabalho de horas a fio. Avalia a nossa técnica, expressão, ritmo, musicalidade e interpretação em muito pouco tempo. Isto se estivermos a contar com as normais condições de uma final, às quais temos que nos sujeitar naturalmente, como acontece em todo o lado. Se pensarmos, no entanto, em quinze ou mais pares a dançar em simultâneo, como tem acontecido em competições nacionais, e que cada dança dura um minuto e meio, concluímos que o tempo que cada júri tem para ver cada par é de seis segundos.

Por outro lado, também sabemos que, se a qualidade de cada par variar significativamente, talvez seja mais fácil para o júri discernir rapidamente quais os que quer ver outra vez e, na final, terá mais tempo para os avaliar, supostamente. Mas seis segundos continua a ser muito pouco tempo.

Sabemos ainda que basta fazermos um erro para eles não voltarem a olhar para nós, porque têm muito trabalho para fazer, mas também sabemos que, tendencialmente, o repetem nas danças seguintes, o que é extremamente injusto. Portanto, se ganharmos o samba, o mais provável é ganharmos a competição, independentemente de haver diferenças entre as nossas performances em cada dança.

Temos ainda o problema dos “lugares marcados”. Um par, para conquistar um lugar numa final ocupada sistematicamente por um outro, não terá que ser apenas melhor do que ele. Terá que ser escandalosamente melhor! Muitos júris têm uma visão muito turva, influenciada por preconceitos, pressupostos e, claro, interesses. Por vezes pergunto-me se eles estão a avaliar quem somos ou o que fazemos. Se estão a avaliar o que já nos viram a fazer ou o que estamos a fazer naquele momento. Se nos comparam literalmente e momentaneamente, ou se partem de uma hierarquia previamente estabelecida na sua cabeça.

De qualquer forma, há, ou deveria haver, critérios, aspectos valorizados, erros imperdoáveis. Com a ajuda de um júri internacional, Dan Radler, e através de uma tradução livre, deixo aqui os aspectos que parecem ser primeiramente e prioritariamente avaliados numa competição de dança desportiva, segundo este experiente júri:

Posture – Um dos aspectos mais importantes. Uma boa postura faz-nos parecer elegantes e transmite confiança. Melhora o equilíbrio e o controlo e permite ao nosso par ter uma boa conexão com o nosso corpo. O resultado de competição de um par é muitas vezes proporcional à sua correcção postural.

Timing – Se um par não está a dançar dentro do ritmo da música, nenhum outro aspecto que tenha de positivo poderá ultrapassar este erro. A música é quem manda.

Line – Falamos da extensão e dilatação do corpo da cabeça aos pés. Linhas atraentes e bem executadas. Sejam curvas ou rectas, realçam as formas das figuras.

Hold – O correcto e inabalável posicionamento das partes do corpo quando se dança em closed position. Por exemplo, deve haver simetria no posicionamento dos braços do homem e mulher, que se devem juntar formando um círculo. Este deve manter-se constante para que os dançarinos mantenham uma correcta posição, um em relação ao outro. A silhueta do casal deve ser sempre agradável.

Togetherness – a junção do peso do corpo de duas pessoas num só, de tal modo que o comando e conexão (leading and following) pareça existir sem esforço, sendo que os dançarinos estão em total sincronização um com o outro.

Musicality and Expression – a caracterização e interpretação básica da dança de acordo com a música que está a tocar e a ligação coreográfica às frases musicais e acentuações.

Presentation – a capacidade do par vender a sua dança ao público, de dançar com entusiasmo, transmitindo alegria e confiança na sua performance.

Power – É entusiasmante ver energia. É de notar que, no jive, parece ser sempre o par mais enérgico a ganhar a dança. Mas a energia deve ser controlada, não impetuosa.

Foot and leg action – o flectir e estender dos joelhos na rumba, de modo a criar movimento de anca; a extensão dos tornozelos e o apontar dos dedos do pé que não tem o peso do corpo, de modo a realçar a linha de uma figura; o uso sequencial da anca, joelho, tornozelo e dedos para alcançar uma acção total; o flectir e estender dos joelhos e tornozelos, na valsa, para criar rise and fall; o uso da parte interna e externa dos pés para criar estilo e linhas.

Shape – Shape é a combinação do turn and sway para criar uma imagem ou uma posição. Por exemplo, no Paso Doble, o homem consegue criar a aparência de estar a manusear a sua capa? E a mulher consegue simular a agitação da capa pelo espaço? No Foxtrot, o homem consegue usar o shape adequado nos passos outside partner, de modo a manter o contacto entre os dois corpos?

Lead and Follow O homem consegue liderar com todo o seu corpo, em vez de apenas com os braços? A mulher consegue seguir sem esforço ou o homem tem que a assistir?

Floor Craft – Refere-se não só à capacidade de evitar bater contra os outros pares na pista, mas também à de continuar a dançar sem pausa quando os acidentes acontecem. Essa capacidade demonstra o controlo que o par tem sobre a sua coreografia e a habilidade por parte do homem de escolher e conduzir para figuras fora do seu trabalho usual, quando surge essa necessidade.

Intangibles – o modo como o par aparenta estar em conjunto, se se adaptam emocionalmente, a sua aparência, o modo como se vestem, o fluir da sua coreografia e, basicamente, o modo como eles se apresentam como dançarinos.

Júris diferentes têm diferentes preferências naquilo que pretendem ver, pesando estes factores de forma diferente. Um júri, por exemplo, pode estar especialmente interessado na técnica, enquanto outro prefere ser movido pela musicalidade e expressão. Embora ambos os factores sejam obviamente importantes e tenham que ser considerados, o resultado pode ser dois pares com classificações bastante distintas. Os pares que se questionam sobre o que é que um júri viu para lhe dar determinada avaliação deveriam saber que qualquer um dos factores aqui enumerados pode ser responsável pela classificação que teve. O uso de um tacão quando é exigida a ponta do pé pode, aos olhos de um júri, prejudicá-los tanto como um fechar de pés meticuloso os pode beneficiar. E porque o júri apenas vê cada par durante poucos segundos, qualquer coisa que chame a atenção, seja positivo ou negativo, pode muito bem ser o factor decisivo da sua classificação.

3 comentários:

Vasco disse...

Mais uma vez, óptimo trabalho Ana… Contudo escusas de fazer noitadas para dares vida a um Blog que é de todos…Uma vez por campeonato já é suficiente!

O material que expuseste sobre aspectos a valorizar é muito bom para os praticantes se poderem orientar e, sobretudo, valorizarem o que é mencionado nas aulas!

Assim, não é à “toa” que trabalhamos as linhas e a conexão do Amaral, o ritmo da Helena, a postura do CC, a expressão da Raquel, os pés do Paulo (mas podes trabalhar outras coisas com o teu mestre…), a precisão do Manuel…etc. Só citei alguns exemplos porque, no fundo, trabalhamos tudo com todos.

Relativamente ao título que usaste para o teu post poderia sugerir, depois do que já vi em algumas competições, o seguinte: “deturpar o objectivo”.

Sim, porque é objectivo dançar-se uma Rumba fora da música, é objectivo não estender um joelho num “Lockstep” e é objectivo não haver qualquer tipo de comando entre o par… Isto em escalões básicos é mau, mas em escalões de topo é ridículo…ainda mais ridículo é quando um par assim é votado para a final…,estranhamente, apenas por um júri…ainda bem que tenho o vídeo senão não acreditaria!

Viva a subjectividade!

Paulo disse...

Quando se pensava q o blog tinha adormecido, eis que surge um post com um assunto q nos desperta a tds...
Sem dúvida que este é um desporto subjectivo, avaliado por pessoas susceptíveis de errar e que, como agravante, ainda têm muito pouco tempo para nos avaliar e podem ter o azar (sim, eles podem ter o azar) de não dislumbrar o nosso brilho (leia-se nosso: Escola Nogueira da Regedoura) e apanhar um erro mais flagrante. É muito importante auto-avaliarmo-nos segundo estes factores para podermos evoluir como dançarinos. É também importante adequarmos, dentro de certos limites, a nossa prestação segundo o "gosto" do júri. Contudo, penso que devemos ter a nossa própria forma de dançar, a nossa própria forma de nos divertimos e mostrar aquilo que trabalhamos e isso não deve ser mudado apenas pela classificação subjectiva de um júri mas pela opinião dos nossos professores que nos conhecem. Enfim, basicamente penso que nos temos de divertir, evoluir segundo opiniões fundamentadas e ganhar uma certa imunidade a obstáculos externos que não são a favor da nossa boa prestação... e a melhor forma de avaliarmos os nossos campeonatos é vermos os DVDs, falarmos com quem percebe e comparar com a classificações dadas... se as duas coisas combinam, óptimo! trabalhamos para melhorar; se não combinam, a consciência não nos pesa a nós e para a próxima tentamos novamente mostrar o que valemos!

Beijinhos e abraços =)

PS: Mestre, um Mestre não é de ninguém é da Humanidade... e há várias categorias de mestre: assim como numa mesa de júri há o presidente e os outros...

Ana Oliveira disse...

É mesmo muito bom saber que conseguimos passar determinadas mensagens aos nossos alunos e que eles têm bastante clarividência sobre os objectivos mais importantes a ter em conta neste desporto e neste mundo tão fascinante quanto, muitas vezes, difícil de digerir. Esta digestão depende muito da postura que conseguimos manter perante a competição em si. Podemos dançar exclusivamente preocupados com as classificações e, aí, deverão surgir muitas congestões... ou podemos dançar preocupados com a nossa evolução e com o mostrarmos a quem nos acompanha e a quem nos conhece os resultados do trabalho e dedicação. Esse é um aspecto fundamental que o Paulo referiu: uma pessoa que nos veja a dançar pela primeira vez pode gostar mais ou menos, mas nunca terá a verdadeira noção do trabalho que fazemos, não conhecendo a nossa evolução. Os nossos professores e colegas são sempre aqueles que, de modo mais vantajoso para nós, nos poderão fazer críticas construtivas consequentes do conhecimento da nossa evolução. Como não se pode pôr o carro à frente dos bois, essas críticas são sempre as mais adequadas ao momento em que estamos e à fase do nosso percurso.
A opinião do júri é a que determina a nossa classificação mas não é, de todo, a única que importa saber. Muitas vezes fico desiludida com um lugar ou uma prestação que tive mas se, depois de ver o DVD, achar que evoluí em relação ao campeonato anterior, fico extremamente serena e com vontade de trabalhar mais.
Pelas razões que referi (quem nos conhece avalia-nos melhor), arrisco a dizer que nunca se vai resolver o problema de júris avaliarem os próprios alunos. Se dois pares têm uma performance mais ou menos equivalente, o júri-professor acaba sempre por escolher os seus alunos, até porque conhece o esforço que eles fazem, acompanha a sua evolução, vê tudo o que eles conseguem fazer no decorrer das aulas. Numa competição não podem ver uma dança do princípio ao fim de um só par!Mas claro que isto não pode ser assim, não deveria ser assim...porque nem toda a gente decide andar para aí a ter aulas com todos os júris, um bocadinho com cada um, só para ser bem-amando e conhecido por todos! Os júris deveriam ser capazes de, no momento da competição, olhar para todos os pares como se não os conhecessem de lado nenhum, como se nunca os tivessem visto, e avaliar aquilo que eles fazem no momento. Até pode ser que o par campeão faça grande asneira e não esteja nos seus dias, e um outro tenha uma prestação surpreendentemente melhor. Não adianta. O campeão há-de ser sempre o potencial campeão, o outro até esteve bem mas...vejamos, dança há x tempo, tem aulas com x pessoa, é de x escola, blábláblá...Há inúmeros factores a pesar. Demasiados, até.
Nunca fui júri e detesto criticar algo que não conheço por dentro. Mas penso que é normal especularmos sobre o seu trabalho, até porque o nosso nome aparece numa lista qualitativa que é determinada por eles.

Paulo, não te preocupes que o blog não vai adormecer de um momento para o outro! Como vês, mal fazes um apontamento desses eu ataco com um testamento! :)